Caso Kátia Vargas: algumas reflexões

No dia 06 de dezembro aconteceu o julgamento de Katia Vargas, acusada de homicídio duplamente qualificado por arremessar seu carro em cima de uma moto que terminou com a morte dos irmãos Emanuel e Emanuele Gomes. Katia foi absolvida pelo júri popular por quatro votos a três, causando revolta na família dos irmãos e também nas redes sociais pela comoção que causou em 2013, ano do fato e agora com o julgamento. Há recursos ainda a serem possíveis pelos advogados das vitimas e MP, esse caso ainda vai ter novos capítulos… Alguns aspectos desse caso foram ignorados como a ineficiência da investigação criminal e também a violência no trânsito, ao contrário do discurso, reflexo da violência que é uma das nossas características.

Nesse caso ficou evidente a necessidade de grande evolução nas investigações criminais em nosso país, não apenas nesse caso, é letra corrente que a reunião de profissionais de polícia técnica mal remunerados, mal preparados e desprovidos de instrumentos de investigação fazem com que a grande parcela dos casos criminais não seja investigado e os poucos que são, o são sem a eficácia necessárias, o que deixa margem para julgamentos altamente subjetivos dos magistrados, pautados basicamente na palavra de agentes de segurança pública, ainda treinados nos moldes autoritários herdados da ditadura militar, que tendem a encarcerar majoritariamente pretos e pobres. No caso Kátia Vargas, ficou clara as inconsistências e fragilidade nas provas periciais e testemunhais, dando margem a dúvidas da magistrada e do júri, o que certamente influenciou decisivamente no resultado final, por todos os relatos e provas é bem nítido que a única pessoa que sabe o que realmente aconteceu no dia foi a ré.

Além disso, esse caso é emblemático da nossa violência latente, há um discurso de que somos um povo pacífico e ordeiro, discurso que não encontra base real, nós somos um povo violento, essa violência tem raízes históricas, no povoamento do país a base de estupros de mulheres negras e indígenas pelos europeus e descendentes, da desigualdade social indecente que existe em nosso país a cinco séculos, da opressão, dos regimes autoritários que se sucederam desde a colonização, exemplo disso é a recente garantia de direitos individuais, sociais e outros na Constituição apenas em 1988 e processo democrático representativo de fato também após a Carta Magna de 1988 – processo esse rompido com o golpe de Estado em 2016 – e essa violência se manifesta no trânsito também, dados recentes mostram que morrem 47.000 pessoas e 500.000 ficam com sequelas anualmente por conta de acidentes de trânsito, essa violência nas estradas, avenidas e ruas do país como produto de nossa violência interna e cotidiana é bem explorada pelo antropólogo Roberto DaMatta na obra “Fé em Deus e pé na tábua: como e por que o trânsito enlouquece o Brasil”, ele em declaração no momento de lançamento do livro num programa de entrevista declarou que quando estamos sob o controle de veículos, nos inflamos de poder, de desafiar o outro, e uma ferramenta de locomoção acaba virando uma arma, um instrumento de descarrego da nossa ira, raiva por ter supostamente nosso ego ferido por ações de terceiros mas que o trânsito cobra rapidamente as consequências dessa mistura de poder e violência sobre a formas de prejuízos financeiros com pontuações e cassações do direito de dirigir, multas, com danos materiais nos veículos e também mais graves danos como sequelas físicas, mortes e impactos físicos, psicológicos, sociais e financeiros em quem está envolvido nos acidentes e naqueles que tem relações com eles, um exemplo, presenciei uma colisão de trânsito no dia seguinte ao do julgamento, quando voltava do almoço, segundo relato da condutora, um taxista não sinalizou e ela para evitar um acidente de maiores proporções, acabou colidindo com um outro carro, a moça que evitou um caso de proporções maiores, saiu transtornada do carro dela, esbravejando com o taxista, ainda ela estava grávida, com dedo em riste na cara do taxista, totalmente fora de si e fora do perfil de conduta que me pareceu que ela deva ter normalmente, teve todos os elementos do caso de Kátia Vargas e dos irmãos na moto, que se iniciou com uma discussão de trânsito pelos relatos e felizmente não terminou da mesma forma, demonstrando esse pequeno relato, que a violência que habita em nós vem a superfície de forma avassaladora nas situações de transito cotidianamente, trazendo consequências trágicas e sequelas irreversíveis.

Esse caso é emblemático para podermos pensar no funcionamento de nossa sociedade e como lidamos com nós mesmos, com a violência que temos em nós e que sem reflexões emergem causando estragos irreversíveis, que as paixões que casos como esse geram naturalmente não deixem de trazer reflexões conscientes e racionais, que possamos aproveitar esses fatos que infelizmente acontecem para repensar socialmente e individualmente, atos, condutas e nossa engrenagem social que visivelmente pelos dados apresentados precisa ser discutida e aperfeiçoada.

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História, Contabilidade e a falácia da “consciência humana”

Olá,
Não sei se alguém reparou nisso, mas todo dia 20 de novembro em que é celebrado o Dia da Consciência Negra aparecem posts nas redes sociais divulgando que esse dia não deveria existir e sim no lugar deveria existir o Dia da “Consciência Humana”, que esse dia era estimulo a segregação, que todos somos humanos e semelhantes…
Primeiramente analisando o termo “consciência humana” facilmente deduz-se que a pessoa tem que ser considerada humana para se englobar em tal dia, o que historicamente a população negra nunca foi considerada “humana”, desde o inicio do trafico de africanos e sua escravização no Brasil no fim do século XVI, eles e seus descendentes, eram classificados como “semoventes” e contabilizados como tal. Semoventes de acordo com a definição jurídica são “aqueles que andam ou se movem por si”, se aplicando a animais que são propriedades e tal classificação também era aplicada aos escravizados, tal classificação foi ratificada pelo Código Comercial de 1850 que no seu art. 273 dizia “Podem dar-se em penhor bens móveis, mercadorias e quaisquer outros efeitos, títulos da Dívida Pública, ações de companhias ou empresas e em geral quaisquer papéis de crédito negociáveis em comércio. Não podem, porém, dar-se em penhor comercial escravos, nem semoventes.” ou seja, para fins contábeis, a população negra era considerada um bem do seu proprietário, e bem por definição é uma coisa que tem valor econômico, se considerada uma coisa, não é humano e pasmem esse artigo 273 somente foi revogado em 2002 com a entrada em vigor do Novo Código Civil, ou seja, se se fizesse levantamentos contábeis de alguma determinada empresa anterior a 1888 até o ano de 2002, pessoas escravizadas poderiam ser contabilizadas como coisas!!!.
Além dessa questão de ordem contábil, não se pode apagar a história, foram mais de 300 anos de regime escravocrata em nosso país, além disso, com a “Lei Áurea”, a população negra foi deixada a própria sorte pelo mesmo Estado brasileiro que legitimou, usufruiu e criou riquezas através da sua exploração, enquanto esse mesmo Estado patrocinou nesse mesmo período com doação de terras, bens, recursos financeiros a imigração de europeus para o nosso país na tentativa de embranquecer a população e nos anos após 1888 até os dias atuais continuou a excluir e não promover a reparação da escravização e exploração dos afrodescendentes ao longo da nossa história.
Não se pode apagar a história, o presente de desigualdade racial é reprodução do passado, mulheres e homens negros continuam a serem objetificados, explorados inclusive sexualmente, sem oportunidades, com menos escolaridade e renda e assassinados aos milhares pela maquina de repressão do Estado nos milhares de bairros periféricos espalhados país a fora, afinal como diz Elza Soares “a carne mais barata do mercado é a carne negra”.
Então antes de sair por ai vendendo “consciência humana”, lembre-se da história do nosso país, do racismo estrutural que se perpetua durante séculos, lembre-se que a abolição da escravatura, as políticas de reparação raciais recentes, o dia da consciência negra e outras conquistas foram frutos da luta de milhares desde que o primeiro negro desceu acorrentado no Brasil que eles lutam pela liberdade e por seus direitos, ao contrario do que se conta nos livros, houve luta, mortes, muita dor de mães que abortavam seus filhos para que eles não passassem o mesmo que elas, dor de muitos suicídios para não voltar a exploração depois de conseguirem fugir, dor da violência cultural e religiosa de não poder cultuar suas divindades e obrigados a ferro e a fogo a se converter ao cristianismo, mas também houve formação de quilombos, houveram lideres como Zumbi e Dandara dos Palmares, há o movimento negro ao longo do século XX, enfim não esqueçamos disso e também reconheçamos nosso racismo, que é nos ensinado desde a infância e que necessita ser desconstruído, nossos privilégios pelo simples fato da cor de pele, podemos começar não tentando silenciar com frases do tipo “não deveria ter dia da consciência negra”, isso é oprimir, isso é tirar a fala, a expressão, a liberdade de celebrar as conquistas, a luta e os referenciais da população negra!
Viva ao Dia da Consciência Negra! Zumbi e Dandara vivem!!!

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O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, censura e ignorância, intolerância e má-fé cristã

Nesse fim de semana um juiz de primeira instância proibiu a exibição da peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, de autoria da escritora britânica Jo Clifford, traduzido, adaptado e dirigido por Natalia Mallo e encenado pela atriz Renata Carvalho que também assina a direção ao lado de Natalia, peça que tem como questionamento “E se Jesus vivesse nos tempos de hoje e fosse uma mulher transgênero?” e como descrito na página da peça numa rede social, o espetáculo “é uma mistura de monólogo e contação de histórias em um ritual que mostra Jesus no tempo presente, na pele de uma mulher transgênero. Histórias bíblicas são recontadas em uma perspectiva contemporânea, propondo uma reflexão sobre a opressão e a intolerância sofridas por pessoas trans* e minorias em geral e reitera valores cristãos como amor, perdão e aceitação. Contamos histórias como O Bom Samaritano, A semente de mostarda e A Mulher Adúltera como se se passassem na atualidade, para contextualizá-las com a vivência cotidiana de transexuais, como a atriz Renata Carvalho, de 33 anos, que vive Jesus no espetáculo”.

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A peça foi escrita pela autora inglesa na tentativa de dar novo significado ao dilema que vivia na época que se tornou transexual e a vivência da sua religião já que é de conhecimento publico que as religiões cristãs excluem e condenam as minorias como mulheres, LGBTs, deficientes e também ao longo da história deram aval e concorreram para atrocidades contras esses grupos e contra a população negra como no episódio que a igreja católica ratificou a escravização de pessoas negras com a justificativa que estas não tinham alma, o que é diametralmente oposto às condutas e lições proferidas por Jesus e narradas no Novo Testamento da Bíblia.

Antes de continuar na seara da discussão religiosa, gostaria de comentar trechos da decisão do juiz, abre aspas:

Ao que parece a parte acionada desrespeitou o princípio constitucional no art. 5.º, inciso VI, da Constituição Federal a qual dispõe que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religioso se garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias. Compreendo que não se pode tentar, assim, eliminar os símbolos/crenças religiosos mais tradicionais do povo, com narrativas debochadas e fantasiosas, como que lhe arrancando as raízes.”

Primeiramente a argumentação já começa com “ao que parece” demonstrando que o magistrado não faz nenhuma ideia do conteúdo da peça, bastaria uma breve pesquisa para saber, pesquisa essa que demonstraria o que já citei acima e também que a autora é católica, o que derrubaria o outro argumento de “narrativa debochada e fantasiosa” como alguém iria fazer uma narrativa adjetivada pelo magistrado tendo como crença o catolicismo que é uma religião cristã? Infelizmente se tornou comum, decisões do Judiciário sem fundamento em nosso país e o exemplo vêm do STF haja vista a frase emblemática da Ministra Rosa Weber no julgamento da AP 470 “não há provas, mas vou condena-lo porque a literatura jurídica me permite”.

O que claramente os autores da ação com a anuência do juiz em questão fizeram foi censura que é a análise de trabalhos artísticos, informativos etc. com base em critérios morais ou políticos, para julgar a conveniência de sua liberação à exibição pública, publicação ou divulgação, no caso em questão a moral religiosa cristã, o que também não encontra eco nos ensinamentos de Jesus – mesmo que encontrasse, não seria fundamento pra censura já que a moral social é uma construção com diversas fontes e não pode ser pautada em uma única fonte – que são esquecidos pelos cristãos há dois milênios, toda a conduta das religiões cristãs é baseada na doutrina mosaica, Jesus atualizou o pensamento e as normas de conduta com uma simples frase “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo, estão ai todas as leis e todos os profetas” além das palavras, Jesus na sua conduta ratificava as suas palavras, basta a analise dos textos bíblicos para verificarmos que a esmagadora maioria daqueles que se agregavam,  o seguiam e tiveram relevância na sua caminhada entre nós eram provenientes dos grupos sociais excluídos, os apóstolos eram pescadores, pessoas que estavam no ultimo estrato da sociedade judaica na época pois não possuíam nem terras nem animais, retirando seu sustento do mar, as mulheres que nas religiões judaica e cristã são consideradas inferiores, os deficientes, os coletores de impostos, ao mesmo tempo que combatia ferozmente a hipocrisia dos sacerdotes e falso moralistas, os sepulcros caiados da época, o próprio Jesus era filho de um carpinteiro e de uma dona de casa. No contexto histórico ao qual Jesus era primazia do Império Romano, em que era comum imperadores, políticos, militares, pensadores terem relações homossexuais, como era pratica também na Grécia, Pérsia, etc… encontre alguma palavra de Jesus nos quatro evangelhos preocupado com essa questão? Jesus conhecia profundamente aqueles pertencentes ao seu tempo e a humanidade, sua palavra e ações eram para difundir o amor sem restrições, combater a hipocrisia e falsa moral e não se preocupar com expressões da vida humana ou da vida social, se fosse tão importante assim haveria sermões sobre essas temáticas, corroborando isso a única citação que usam contra a homossexualidade é uma passagem do livro Levíticos do Velho Testamento, que estabelecia regras de condutas proferidas por Moises para conduta do povo judeu naquela época já que a conduta da população hebraica era fortemente influenciada pela conduta do povo egípcio que também assim como outros impérios tinham pessoas que mantinham relações homossexuais e como naquela época regras civis só tinham validade com aval divino, já que as sociedades eram teocráticas, essas regras viraram “palavras de Deus”… apenas quando interessa porque tem muitas outras regras nesse mesmo livro que nenhum cristão segue, basta fazer uma checagem com qualquer um deles.

Fazendo um exercício semelhante à autora da peça, os excluídos socialmente praticamente seriam os mesmos daquela época de Jesus, com adição do grupo LGBT que ganhou evidenciação nas ultimas décadas e quem seriam os sepulcros caiados, falsos moralistas? Simples, pastores, missionários, padres, bispos, papas que praticam milhares de crimes há séculos e ainda o fazem até hoje, crimes como pedofilia, abuso, estupro, assassinatos e são acobertados pelos seus pares e seguidores em geral das religiões cristãs que fecham os olhos para as barbaridades que acontecem no seio dos seus templos religiosos, destes que apoiam a retirada de direitos trabalhistas, sociais, negação de direitos a varias minorias, além de transformarem os templos no templo de Jerusalém, também combatidos energicamente por Jesus naquele episódio da destruição dos comércios dentro do templo, o que se repete hoje com sacerdotes, pastores e missionários que usufruem de bilhões de reais e vendem a salvação, verdadeiros mercadores da fé, então hipócritas, falso moralistas, sepulcros caiados da atualidade, antes de tirar o cisco do olho alheio, tirem as traves nos seus.

Finalizando, a peça foi encenada no Goethe Institute, já que a decisão somente proibia a exibição no Espaço Cultural da Barroquinha e mesmo com a censura dos falsos moralistas, a arte nesse episódio triunfou, há uma onda mundial de conservadorismo, Brasil não é exceção a regra, temos de resistir a essa onda, a arte é uma das armas! Viva a arte!

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A lógica neoliberal do ataque ao FGTS

Olá,

Um dia desses vi numa rede social um questionamento de alguém sobre o porquê dessa sanha repentina em cima dos recursos do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) por parte do governo provisório de Michel Temer et caterva… aí vão alguns motivos para tal plano com DNA neoliberal:

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1) Sucatear bens e serviços públicos para concessão e privatização

Os recursos do FGTS segundo o § 2° a Lei 8.036/90 deverão ser empregados em habitação, saneamento básico e infraestrutura urbana, com o anuncio da disponibilização de saque de R$ 30 bilhões das contas inativas e também o recente projeto de extinguir a multa de 10% paga pelas empresas quando da demissão do trabalhado sem justa causa, é retirado um volume vultoso de recursos, afetando diretamente investimentos públicos nas áreas citadas, o que leva ao sucateamento do serviço de saneamento e da infraestrutura e levando ao discurso e ação de concessão e privatização, roteiro neoliberal empregado na entrega do patrimônio nacional na era FHC e nas concessões recentes, em que só se beneficia o capital com recursos da população via pedágio e nas compensações bilionárias que concessionarias recebem para manter a rentabilidade do contrato.

2) Restringir o acesso a habitação, principalmente a popular

Os recursos do FGTS e da multa de 10% também são aplicados no sistema de habitação, a lei do FGTS determina que 60% dos recursos do fundo sejam para habitação, ou seja, com esse saque e o fim da multa, o programa Minha Casa Minha Vida na prática não existirá e recursos para outras faixas ficarão mais caros e escassos, aqueles mais abastados que poderão tomar recursos para comprar esses imóveis e a maioria da população viverá de aluguel, remunerando o capital de poucos com valores determinados por estes a seu bel prazer.

3) Descapitalizar a Caixa para privatiza-la

Quem gere os recursos do FGTS e o Sistema de Financiamento Habitacional é a Caixa Econômica Federal, com essa redução vultosa dos recursos do fundo, a Caixa perde receitas já que os bancos públicos recebem uma porcentagem do valor das operações por administrar fundos como o FGTS e também ocorre descapitalização do banco, o que leva consequentemente a redução do numero de funcionários que ficarão sem função devido a redução dessa área do banco, levando isso tudo a perda da saúde financeira e sucateamento dos serviços de interesse social prestados pela Caixa, gerando motivos para sua privatização, como já é plano dos neoliberais desde FHC, vender a Caixa, o Banco do Brasil e a Petrobras.

4)  Transferência de recursos do FGTS para o sistema financeiro e acionistas de empresas

Com o saque dos recursos e também fim da multa vai ocorrer dois fenômenos na economia: primeiro que boa parte desses 30 bilhões irá para o pagamento de dividas assim como ocorre com o 13°, uma parte poupada já que não há perspectiva de melhora na economia, e uma parcela menor para consumo, o efeito será bem menor para o crescimento econômico do que se ventila, grande parte desses recursos vai sair da alçada de um banco publico e de investimentos de interesse social para instituições financeiras privadas, a parte que for para consumo e o valor da extinção da multa será embolsado pelas empresas, mas não reinvestido, pois será preservado ou distribuído para acionistas, já que como foi dito, o que se avizinha com as medidas do governo é menos emprego, renda, investimentos e mais recessão.  (Jogue no google a palavra FGTS e veja qual a propaganda que aparece, um banco privado incentivando quem receber a antecipar os recursos para o mesmo e pagar as contas)
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5) Aumento do desemprego e redução da renda do trabalhador

Com menos investimentos em saneamento, infraestrutura e habitação haverá mais demissões, e como o setor da construção civil é um dos principais empregadores da economia por exigir grande volume de mão de obra, e também tem efeito multiplicador já que tem uma cadeia de outras empresas que prestam serviços às construtoras, essas empresas já combalidas pelos efeitos danosos da destrutiva e entreguista Operação Lava Jato sofrerão mais efeitos danosos, abrindo caminho para inserção de empresas internacionais de construção e engenharia drenando recursos que poderiam gerar emprego e renda no país para outros países, e também gerando efeitos danosos na renda do trabalhador já que excesso de oferta de mão de obra gera redução da renda, já que aumenta o poder de barganha do empregador,e tambémsegundo a lógica neoliberal, gerar desemprego leva a redução da pressão inflacionária gerada pela demanda.

Com esses 5 pontos está claro que essa ação é orquestrada para favorecer apenas o 1% , as custas da drenagem de recursos públicos para este restrito grupo, levando ao 99% a um quadro de empobrecimento e miséria social, e aumentando o fosso que sempre os separou, objetivo máximo do Golpe de Estado que foi dado no país em 2016.

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O canto de um canto: Critica do filme Axé – Canto do Povo de Um Lugar

Olá,
Fui assistir semana passada o filme “Axé – Canto do Povo de Um Lugar” que retrata a história de como a axé music se tornou símbolo musical do Carnaval de Salvador, uma das maiores festas de rua do planeta.

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A axé music tem sob seu guarda-chuva diversos segmentos musicais que acabam sendo transmitidos tudo como axé como bem disse Gilberto Gil em uma das suas intervenções ao longo do filme, e o termo axé vem de àse, termo iorubá que significa “energia”, “poder”, “força”, adjetivos que estão largamente presentes quando os trios atravessam os circuitos arrastando as multidões de baianos e turistas.

O filme faz uma trajetória histórica interessante combinando muitas gravações da folia, evocação dos sucessos estrondosos que surgiam carnaval após carnaval, assim apelando para a memoria afetiva de quem esteve e está lá ano após ano, e também depoimentos de alguns personagens centrais desse enredo, o que proporciona a quem vê a produção cinematográfica as mudanças que ocorreram com o passar dos anos e também como a axé music e o carnaval chegaram na crise que passam atualmente.

Mesmo ignorado alguns pontos centrais de como tal ponto se deu – pelo fato do filme ser dirigido por Chico Kertész e ter vários membros do Grupo Metrópole em sua produção, Chico que é filho do radialista, prefeito de Salvador por 2 vezes e do carlista Mario Kertész – podemos na própria trajetória da película identifica-los: o embranquecimento tanto da festa quando dos artistas que a comandam, o afastamento da sua força motriz que é a cultura afro-brasileira e sua relegação ao segundo plano, o enlatamento do produto carnaval posto em ação pelo falecido ex-governador e ex-senador Antônio Carlos Magalhães no inicio da década de 90.

Caso observemos as imagens que passam no filme vemos uma mudança visual drástica nos atores centrais tanto no chão quanto em cima dos trios, anteriormente tanto artistas quanto foliões representavam muito bem Salvador, a cidade que tem 80% de sua população afrodescendente, com o advento dos blocos com cordas e camarotes, vemos uma transformação significativa até os dias atuais, com tanto no chão quando em cima do trio o predomínio do branco, e a maioria da população espremida entre a corda dos blocos e os camarotes, e os artistas brancos comandando a festa, relegados a segundo plano os blocos afro e os cantores negros, só os mesmos servindo para serem moídos como cana na maquina como disse Ninha numa das poucas intervenções criticas ao longo do filme e manter a falácia da democracia racial que impera na cidade e no país.

Outro fator essencial que é ignorado ao longo do filme é a decisiva contribuição do falecido ex-governador e ex-senador Antônio Carlos Magalhães para a axé music se tornar símbolo da cidade e do estado com a produtivização do carnaval e da axé music como símbolos da democracia racial e de uma Salvador e Bahia alegre, feliz e pujante com vultosas verbas publicas principalmente das secretarias de cultura municipal e estadual, Bahiatursa e Saltur, isenções fiscais para blocos e camarotes, e outras medidas, que fizeram os principais expoentes da axé music amealharem fortunas e os mesmos posteriormente ignorarem o dia da morte do seu mecenas como bem exposto num artigo da professora e jornalista Malu Fontes sobre o folclore do dia da morte de ACM, afinal a chave do cofre tinha mudado de mãos aquela altura….

Esses fatores junto com o espírito predatório e individualista dos artistas e empresários de explorarem até o esgotamento aquilo que tinham transformado em produto altamente lucrativo levaram a axé music e o carnaval a crise que parece sem saída no curto prazo, pois não há sinalização de que os fatores que levaram a isso serão levados em consideração e o filme é a prova que seguirão ignorados, e os foliões continuarão saudosos dos tempos antigos quando o carnaval era uma festa realmente popular.

No geral pelo conjunto da obra, recomendo que vejam o filme, dá uma dimensão histórica do carnaval e do seu principal expoente musical, e também possibilita diversos olhares para quem quer realmente ver e entender como chegamos ao cenário atual.

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Resenha: Hibisco Roxo

O livro de estreia da aclamada escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie retrata a história de uma família de classe alta da Nigéria que parece aos olhos da sociedade é o modelo, contada pela protagonista Kambili, mostra seu pai Eugenie que é um influente industrial do ramo alimentício, exemplo de cristão, mas que agride sistematicamente a esposa Mama, Jaja e Kambili, ao mesmo tempo financia um jornal de oposição aos autoritários e corruptos governantes  do país, e também renega o pai pois o mesmo é politeísta.

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O livro também mostra a transformação de Kambili e seu irmão Jaja ao entrar em contato com a família da tia Ifeoma, uma professora universitária que também sofre as agruras da maioria da população nigeriana, por conta do sucateamento dos serviços públicos, principalmente os da área de educação.

O livro mostra vários aspectos como a violência doméstica produto do patriarcalismo, do machismo e da religião que são fortes no país, conforme pode ser visto no outro livro da autora Sejamos Todos Feministas, o conflito dentro de famílias causado pela colonização na Nigéria, que assim como em toda África, além de militar, também teve seu viés cultural e religioso, que sempre anda de braços dados com o primeiro, afinal é necessário manter o povo conquistado sob controle e nada melhor do que o destituir de sua cultura e suas crenças, mostra uma Nigéria pobre e governada por corruptos, mas em nenhum momento tanto na questão do conflito religioso quanto na corrupção governamental, se levanta no núcleo questionador do livro a participação imperativa dos países que colonizaram a Nigéria e a África, eles diretamente responsáveis no passado e no presente pela manutenção do patamar no continente, semeando conflitos, financiando ditaduras e golpes para continuar a explorar as riquezas do continente, e nesse quesito a Nigéria é um diamante, afinal detém as maiores reservas de petróleo do continente ao lado de Angola, além de outras reservas de minérios, imagino que esse seja o motivo de o mercado aceitou com tanta facilidade uma escritora africana, afinal retratar a Nigéria e o continente africano como apenas reduto de pobreza e corrupção sem questionar as causas disso é bem aceitável ,  também no livro se levanta pontos interessantes como as contradições entre o pai Eugenie que ao mesmo tempo comete atrocidades dentro de casa, financia o principal jornal de oposição do país, expondo assim uma realidade do setor progressista, em que homens que aparentam serem progressistas e ao mesmo tempo suprimem direitos e cometem violências contra mulheres e também a questão que tem logo no final do livro que Mama e Kambili se utilizam dos mesmos subterfúgios corruptos que o pai utilizava para conseguir vantagens.

Hibisco Roxo é um excelente livro, a escrita de Chimamanda Adichie é fluida como suas falas, e nos permite ter uma perspectiva dos efeitos em todos os aspectos da colonização e da exploração pelo capital da Nigéria.

 

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O fascínio musical infantil

Essa semana ouvindo o concerto da pianista Rejane Evangelista, não pude deixar de notar uma cena fascinante e de rara beleza: uma bebezinha no colo do seu pai tentando imitar com os dedos os movimentos da pianista na hora em que as melodias assumiam tons mais vibrantes.

Nessa e em concertos anteriores a fascinação das crianças pela harmonia e sonoridade emitida pelo tocar das canções pela citada pianista se repete a cada apresentação, fazendo pais e principalmente mães também pararem por algum tempo para apreciar a música.

Alguns anos atrás o jornal estadunidense Washington Post fez um experimento numa estação de metrô de Nova York para verificar a valoração que damos a arte em ambientes diversos. O jornal convidou o violinista Joshua Bell, um dos maiores violinistas da atualidade e de todos os tempos para tocar na estação acompanhando do raríssimo e fantástico violino Stradivarius. Durante os 45 minutos de apresentação pouquíssimas pessoas pararam, em sua maioria mulheres que paravam em virtude de seus filhos pararem para ouvir e no vídeo pode-se observar que apenas no final 3 mulheres param pra ouvir e apenas uma delas reconhece Bell.

Disse certa vez a uma conhecida que estava nas primeiras lições do estudo do violino que apenas 7 notas são capazes de gerar uma imensidão de canções, emoções e experiências únicas, e que como disse certa vez o mestre Gonzaguinha, fiquemos com a pureza das respostas das crianças, respostas de alegria e deslumbramento diante do esplendor da música.

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